Crônica: To Kill a Reader

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Relutava. Há dois dias tentava vencer as poucas mais de cem páginas restantes, mas as minhas vinte e quatro horas não eram como as de todo mundo. Dei as costas para o balcão e acabara de sentar quando, de longe, vi um velho parado à porta, a me fitar.
Lá fora, o sol pairava sobre a copa das árvores. Não havia sinais de nuvens — o tal céu de brigadeiro, não é? Provavelmente fazia cerca de 30 graus ou mais. O vento, que balançava as folhas e levantava a areia do asfalto, era quente, abafado.
A passos lentos, o velho caminhou em minha direção. Desviei o olhar e voltei-me para as páginas, desejando de toda a alma que ele não precisasse de atendimento. Por Deus, como eu queria terminar aquilo!
A verdade é que começara a leitura em dezembro, abandonando-a por achá-la cansativa. Mas, ao retomá-la no fim de janeiro, a trama ganhara proporções magnéticas. O livro tornara-se bom demais. Se não encontrasse um final digno, entraria naquela ressaca literária que todo ávido leitor teme.
À medida que eu clamava ao divino para que o velho fosse embora, seus passos tornavam-se mais largos. Em meio ao burburinho da rua, quase podia ouvir o arrastar de suas sandálias e sua respiração pesada.
Ele parou e pôs as mãos dentro de uma bolsa que carregava no ombro. A essa altura, meus olhos já não estavam mais sobre as páginas. Eu fora traído pelos meus pensamentos acerca do velho. Precisava eliminar de uma vez por todas aquela situação, cortar o mal pela raiz, quebrar a última barreira entre o mundo externo e o universo de Jem Finch.
De dentro da bolsa, vi-o tirar um pequeno papel dobrado. Com certeza me pediria algo; não restavam dúvidas. Por Deus, jamais irei terminar esse livro! Que situação. Meu sangue fervia e a impaciência tornava-se lancinante; bastava observar as pequenas veias a saltar em minhas têmporas.
Ele caminhou cada vez mais próximo. Sim, aquela peregrinação terminaria ali. Finalmente, chegou ao balcão. Observei-o buscar fôlego, recuperar o que fora perdido. A língua umedecia os lábios finos e rachados. De cima a baixo, respirou mais uma vez. Começou a abrir a boca, mas tossiu. Pigarreou. Tossiu novamente, levando a mão à boca. Sorveu todo o ar que restava e, finalmente, olhando-me nos olhos, perguntou:
— Por favor, meu jovem… onde é o banheiro?