PTA nos entrega tudo mais uma vez - Uma Batalha Após a Outra

Divulgaçã WB
Talvez sejam apenas loucuras advindas da minha mente, mas, durante vários enquadramentos e cenas, tive a impressão de estar assistindo a um filme de ação de Wes Anderson. De fato, apenas uma impressão passageira, pois, nos minutos seguintes, a sensação era a de estar imerso, inconfundivelmente, em uma obra de Paul Thomas Anderson (PTA). Em Uma Batalha Após a Outra, um grupo de guerrilheiros faz de tudo para sustentar uma resistência quase falida, há muito perseguida pelas autoridades norte-americanas. Tudo parece começar a desandar ainda mais quando Perfidia (aqui a notável Teyana Taylor), companheira de Bob (implacável e divertido na pele de Leonardo DiCaprio), inicia um caso com o sacana Coronel Lockjaw. O personagem é totalmente incorporado pelo magnífico Sean Penn, que nos deixa pensando o tempo todo: seria ele apenas um oportunista ou um babaca por natureza?
Fato é que PTA nos entrega, nos minutos seguintes aos fatos mencionados, uma sucessão de planos meticulosamente elaborados e um roteiro costurado com rigor entre uma cena e outra. Tenho a nítida impressão de que a economia de palavras é proposital: há poucos diálogos em cena, mas os que existem são geniais. Trocando em miúdos, há em tela um exercício de sequências que se desencadeiam de maneira muito uniforme e orgânica. É sempre uma ação levando a uma reação de proporções gigantescas; e é justamente nessas “reações pintadas” que outros personagens passam a ocupar seu espaço na trama, como é o caso das irmãs do Convento da Santa Cruz que ocupam o núcleo explosivo e cômico.
É entre as paredes desse convento que Willa — filha de Bob, ou quem sabe do próprio Lockjaw? — tropeça na verdade sobre o envolvimento de sua mãe com o Coronel. O militar, no entanto, já antecipa o perigo e tenta se livrar da garota. Para ele, Willa não é apenas uma criança, mas um “rastro” vivo de seu relacionamento com Perfidia; uma mácula que se torna um obstáculo intransponível para sua entrada em um grupo de supremacistas brancos. Talvez aqui habite a resposta definitiva para a dúvida levantada anteriormente: Lockjaw é, sim, um babaca e um oportunista de marca maior, capaz de sacrificar a própria descendência (ou a inocência alheia) em prol de uma validação ideológica escusa.
Por falar em Willa, Chase Infiniti é a grande revelação da trama. Ela nos entrega uma jovem que foi preparada durante toda a vida para se proteger das ações de Lockjaw; é ela quem rouba a cena do meio para o final. É Willa quem prova a Bob que a proteção de um pai, por mais afetuosa e obstinada que seja, não blinda os filhos dos perigos iminentes que o mundo lhes reserva.
Há uma cena excelente que não poderia deixar de mencionar aqui, por ser, na humilde opinião cinéfila deste que vos fala, a melhor do filme. Trata-se de uma perseguição entre Bob, Willa e Lockjaw, todos em carros separados, que ocorre em um trecho hipnótico de estrada próximo à fronteira com o Arizona, carinhosamente apelidado pela produção de “rio de colinas” (river of hills). A geografia do local, com suas ondulações que fazem os veículos mergulharem e ressurgirem no horizonte, dita o ritmo frenético da sequência. O clímax se dá no vertiginoso “Texas Dip”, em Borrego Springs — uma depressão gigante no asfalto que funciona quase como uma montanha-russa natural.

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Cortinas fechadas e sessão encerrada. O que observamos é que Paul Thomas Anderson se mantém em um estado de graça permanente, sempre na iminência de realizar o seu “melhor longa” e nos impondo a difícil tarefa de reordenar seu ranking — que, para mim, ainda tem o topo ocupado por Magnólia. O que se desenrola nos muito bem aproveitados 120 minutos de projeção é uma narrativa de urgência palpável: um enredo atualíssimo sobre guerrilhas, imigração e uma caricatura implacável da máquina estatal norte-americana. Na teia de situações desenhada por um roteiro primoroso, nada ocorre por mero acaso; tudo é arquitetura. É uma daquelas obras que nos obriga a constatar: tal magnitude só respira plenamente na vastidão de uma tela IMAX. É um lembrete estrondoso do tamanho e da força do cinema quando este é pensado, essencialmente, para ser cinema.
Título: Uma Batalha Após a Outra (Título provisório/fictício baseado em The Battle of Baktan Cross) Direção e Roteiro: Paul Thomas Anderson Elenco: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Regina Hall, Teyana Taylor, Alana Haim, Chase Infiniti, Benicio del Toro. Gênero: Thriller / Ação Ano: 2025