Vida Cristã: Deus Não Aceita Atalhos

Yuri Quintanas Art
É com uma facilidade perturbadora que muitos de nós nos afastamos da presença de Deus. Tenho a percepção de que a simples transição de ambientes — o deslocamento entre a casa, a igreja e o trabalho — acaba por ocasionar uma espécie de “fragmentação” espiritual. A triste realidade é que raramente conseguimos sustentar a mesma conduta e integridade nesses três ambientes distintos; somos camaleões quando deveríamos ser constantes.
Foi movido por essa inquietude que tomei uma decisão prática. Dentro das próximas horas, completarei quatro dias de jejum. O propósito que me conduziu a este ato não foi outro senão a necessidade urgente de reafirmar a minha fé. Precisei silenciar o ruído externo para me reaproximar do Senhor e, na quietude dessa disciplina, derramar minhas orações e realinhar meu espírito à vontade dEle.
Na carta aos Romanos, o apóstolo Paulo nos exorta a oferecer nossos corpos como sacrifícios vivos, santos e agradáveis ao Senhor (Romanos 12: 1-2) . Ou seja, a verdadeira adoração não pode ser compartimentada; ela não admite a existência de uma “vida religiosa” separada da “vida comum”. Entregar-se como sacrifício vivo significa que o altar não fica na igreja quando vamos embora; nós somos o altar. Portanto, a maneira como exerço meu trabalho, como trato minha família em casa ou como disciplino minhas vontades físicas durante um jejum, tudo isso deve compor uma única liturgia contínua de entrega a Deus, rompendo com a hipocrisia de sermos cristãos apenas quando nos convém.
Durante este período em que me encontro em jejum, é curioso pensar em como a minha carne tem constantemente tentado subverter a minha mente e o meu espírito. Ontem mesmo, ao retornar para casa, durante a caminhada do ponto de ônibus até o meu prédio, eu não conseguia pensar noutra coisa senão na fome que sentia. O tempo todo, minha mente tentava negociar comigo, criando sofismas para justificar pequenas concessões: talvez mascar uma bala, tomar um grande copo de refresco ou, até mesmo, comer uma fruta; argumentando que eu não estaria saindo do meu jejum se não comesse nada que, de fato, fosse sólido. Ao chegar em casa, tomei duas xícaras bem quentes de chá e, enquanto bebia, um sussurro me veio à mente: Deus não aceita atalhos. De todo modo, não é a primeira vez que realizo um período de privação alimentar e logo me lembro do que ja fora dito, “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? “ (Jeremias 17:9 - ACF)
“O grande objetivo por que Cristo suportou aquele longo jejum no deserto, foi ensinar-nos a necessidade da abnegação e da temperança. Essa obra deve começar à nossa mesa, cumprindo que seja estritamente efetuada em todos os aspectos da vida. O Redentor do mundo veio do Céu para ajudar o homem em sua fraqueza para que, no poder que Jesus lhe veio trazer, ele se torne forte para vencer o apetite e a paixão, fazendo-se vitorioso em todos os pontos.” (EGW, Testemunhos Seletos, Página 418 - CPB)
Tenho para mim que a abstenção e a privação de alimentos, tal como suportada por Cristo durante os quarenta dias em que esteve no deserto, é o meio ideal para recuperar a minha rota e regressar à senda da graça. Pois é justamente no momento em que clamamos e lutamos contra o desejo da carne, que o espírito se volta para o Senhor em total dependência.
Ainda tenho pela frente mais quarenta e oito horas de jejum a cumprir. Sei que, até lá, além de ser desafiado pela minha própria mente, outras áreas — como o controle do meu temperamento durante a privação e o meu comportamento no ambiente de trabalho e em casa — ainda precisam ser aperfeiçoadas e moldadas à luz da graça.
Talvez você esteja enfrentando os mesmos desafios que os meus, ou venha a se deparar com eles em breve. Talvez se pergunte se está conduzindo esse período da melhor forma, ou se meras distrações terrenas (como ouvir música ou ler outra literatura que não seja a sagrada) seriam suficientes para invalidar a sua jornada e conduzi-lo para fora da rota.
Contudo, a Bíblia nos afirma com clareza que Deus sonda nossa mente e o nosso coração. Ele não se detém na aparência ou na falha momentânea, mas na intenção profunda da alma. Como nos lembram as Escrituras:
“Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura […] porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração.” (1 Samuel 16:7- ACF )
“Senhor, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. […] Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces.” (Salmos 139:1,2,4- ACF )
Ele sabe e conhece nossos esforços e o que vai no ímpeto da nossa alma. Nenhum esforço é vão, nenhum sacrifício é tolo, se o conduzirmos com um coração sincero diante dAquele que tudo vê.